UMA VIAGEM ROMÂNTICA A MOSCOVO

Capa_Carlos-Alberto-Machado_Uma viagemUMA VIAGEM ROMÂNTICA A MOSCOVO, de Carlos Alberto Machado

colecção azulcobalto 004 | poesia

48 páginas | ISBN 978-989-8592-15-6 | 1ª edição – Outubro de 2012 | 2ª edição – Outubro de 2012 | PVP: € 8,00

EXCERTO

«Ainda menino empurrado pela miséria desceu

da sua galiza até à solidão morna de lisboa

onde afocinhou na merda gasta dos outros

a pouco e pouco a comida rasca e o vinho

levantaram-lhe a pança muito acima da vergonha

agora no seu estabelecimento próprio esqueceu

o traçado miudinho dos amargos e humilhações talvez

também tenha esquecido a sua primeira taberna e agora

o seu ventre bojudo enchido por vinho martelado e feijoadas

empurra a sua voz tonitruante no café selecto

do bairro que diz ser o seu

“com marcha e tudo”

desde sempre.» [ estabelecimento próprio ]

RECEPÇÃO CRÍTICA / LEITURAS

«A escrita constitui um dos tópicos mais imediatamente identificáveis neste livro, sobretudo como experiência da morte, que já no poema de abertura os livros anunciam na sua arrumação (p. 9) e que depois se representa em ato no poema «o homem do boné preto» (p. 17), para, finalmente, encerrar o livro com uma indicação sobre a condição material da própria escrita/morte (p. 45). Escrever é abrir caminho para a compreensão do mundo e da sua precariedade, defrontar-se com a voragem do tempo e com as marcas da sua passagem, tudo isso no silêncio em que as palavras registam as imagens do mundo em definitivo mortas para o real concreto de que partem.

E aí tanto entram as palavras que refazem a memória de um momento perdido no fundo da infância como as que assinalam a proximidade de um tempo atravessado pelas histórias miúdas de um quotidiano sem transcendência nem heroísmos, episódios da esquina, das várias esquinas, da vida e de um bairro suposto, figuras extra-territorializadas que sobrevivem ao deslizar dos dias refazendo sonhos apenas vislumbrados para lá do abismo da incomunicação (veja-se o belíssimo poema «o homem que imagino ucraniano»). O registo coloquial, popular, da linguagem que ocorre nalguns poemas é, por outro lado, um modo de assinalar o discurso do outro, integrando-o na coloquialidade e fluência discursiva que é já um traço do próprio sujeito poético e institui um efeito de proximidade e de «realismo» que é um das marcas desta poesia na sua generalidade.»

Urbano Bettencourt (apresentação do livro na Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada, 3 de Novembro de 2012)

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