TEATRO REUNIDO (2000-2010)

Teatro Reunido (2000-2010) - capaTEATRO REUNIDO (2000-2010), Carlos Alberto Machado
Prefácio de Rui Pina Coelho
ISBN: 978-989-8592-54-5
Formato: 14×22 cm
Páginas: 384
PVP: 17 euros.
Edição 047 – colecção azulcobalto | teatro 009
1ª edição: Novembro de 2014 (250 exemplares)

EXCERTO

Conheço há muitos anos o Hamlet e a Ofelia. Estes ou outros. Sempre diferentes na sua fuga pelo mundo. Morrendo e ressuscitando sempre. A primeira vez que os encontrei foi em África. Bissau.

Mercado a céu aberto do Bandim. Ele esgaravatava dos bolsos uma decrépita nota de franco para um quarto de uma Sagres escaldante. Ela à beira da estrada mijava sangue. E os seus olhos pediam a compaixão de uma morte breve. Mais tarde, Lisboa. Pensão Paraíso (Banhos Quentes e Frios). Ofereceram-me os seus corpos esvaziados em troca do que eu quisesse. Encontrei-os ainda no Kosovo. Klina. Brigada portuguesa. A guerra tirara um braço a Hamlet. A Ofelia a cor da pele. Nada tinham que servisse de moeda de troca. A última vez foi em Nova Iorque. Foram eles que comandaram a destruição das Twin Towers. Foi essa a história que me quiseram vender e que eu não comprei. Preferi ser eu a inventar-lhes uma outra vida. A troco de nada.

RECEPÇÃO CRÍTICA / LEITURAS

Neste TEATRO REUNIDO de Carlos Alberto Machado estão 13 peças escritas entre 2000 e 2010.
São dez anos de teatro – os primeiros dez anos do novo milénio – que surgem pela pena de um autor que cresceu na segunda metade do século XX e que chega a este novo milénio carregando o peso de um século aparentemente extinto (a guerra no Kosovo, a sida, as drogas, a solidão urbana – parecem coisas extintas – mas surgem aqui com inusitado fulgor).
Uma maneira subtil de jogar com as expectativas do leitor atravessa toda a obra dramática do dramaturgo. São recorrentes os títulos e os ambientes em que se situa a acção num local ou num universo preciso, para em seguida, se abrir uma janela para um outro – surpreendente – universo de referências. O dramaturgo Carlos Alberto Machado surge assim, recorrentemente, como um demiurgo que orquestra o mundo e as regras para habitar esse mundo a seu bel-prazer. O que propõe é que se estabeleça, entre o leitor/espectador e o texto/encenação (virtual ou concretizada) um jogo entre aquilo que se conhece do mundo e aquilo que surge figurado.
De “Os Nomes que Faltam” (2000) a “O Sentido da Vida” (2010) assistimos à evolução de um corpus dramático que, claro, ganhando robustez e densidade, nunca parece alienar os traços que se começam a esquissar logo nos primeiros textos. O tom geral é – quase – sempre o de uma linguagem poética que surge para traduzir acções reconhecíveis do quotidiano, surgindo como uma ruminação das experiências vividas pelas personagens. Assim, são numeráveis os monólogos ou os momentos de solilóquio dentro de estruturas dialógicas, onde se transfigura o real por uma linguagem de matriz lírica, atravessando-o com poesia. O resultado é um saboroso jogo de subversão de géneros e de expectativas. Uma filha que aparece enforcada, um jovem com um cinto de explosivos e que ameaça fazer-se explodir, uma mulher semi-nua com uma perna engessada, um Hamlet e uma Ofélia toxicodependentes, etc., são motivos para uma reconfiguração poética do real.
Dispersas por estas peças encontramos reflexões sobre o amor, a idade, a solidão, a política, a guerra, a cidade, a família, em suma, sobre a vida. Mas não espere o leitor encontrar aqui longas sentenças morais sobre a vida e essas coisas. Os temas nas peças de Carlos Alberto Machado são sempre aquilo que se esconde por detrás do que aparentam ser os temas das peças de Carlos Alberto Machado. Aliás, tal como o sentido da vida.

 

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