O MENINO DA BURRA

Capa Luis_Campiao_menino_burra_REV3O Menino da Burra, de Luís Campião
Colecção azulcobalto | teatro 006
Formato: 11×15 cm
48 páginas
ISBN: 978-989-8592-41-5
1ª edição: Março de 2014

PVP: €6,45

EXCERTO

Chamavam ao meu pai “o menino da burra”.
Foi ele quem construiu esta taberna.
Por isso é que chamam a isto a taberna do menino da
burra.
Mas isto foi depois.
Foi depois da guerra.
Antes, quando o meu pai ouvia “lá vai o menino da
burra”,
saltava de onde estava e desatava ao soco.
Aprendi a dar socos com o meu pai.
“Não há nenhuma arma que substitua um bom soco!”
Era o que ele me dizia.
E sempre que ouvia “lá vai o menino da burra”,
saía-lhe um gancho de direita,
para desfazer a boca a quem quer que lhe chamasse
menino da burra.
E se não fosse certeiro o gancho com a direita,
ele era logo outro com a esquerda.
Aquilo não era coragem.
Aquilo era suicídio.
O meu pai era uma arma.
Levava porrada como um herói.

(…)

RECEPÇÃO

“O menino da burra” de Luís Campião é um texto de uma delicadeza, inteligência e sensibilidade extraordinárias. O relato animado do empregado de balcão da taberna “o menino da burra”, dirigido a um pretenso freguês, sobre uma aguardente “capaz de levantar os mortos”, é o motivo suficiente para evocar um país e um tempo já idos: o Portugal do Estado Novo e da guerra colonial, da pobreza e da ruralidade, da violência e da ingenuidade. E é também um lembrete de que por detrás dos gestos mais poéticos se pode esconder a mais sórdida crueldade.

Rui Pina Coelho

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