O REGRESSO DE ORTOV

Capa_Jaime_Rocha_V02O REGRESSO DE ORTOV, de Jaime Rocha

colecção azulcobalto 011 | teatro 003

52 páginas | 978-989-8592-28-6| 1ª edição – Maio de 2013 | 2ª edição – Maio de 2013 | PVP: € 6,45

EXCERTO

«ORTOV: Sim, mas fui eu mesmo que o matei, com estas mãos. Eu já andava a topar o gajo, com um tique no ombro direito, a olhar para a janela dos meus vizinhos albinos da Tanzânia. Todos os dias ele passava e ficava a olhar, com uns olhos alucinados e uma pasta. Tinha um pequeno osso espetado num ouvido. (pausa) Foi duro, eu sei, não devia tê-lo matado daquela maneira, mas o que é que quer, foi mais forte do que eu. Já agora,
pergunto, quantas pessoas neste país têm vizinhos albinos? Que eu saiba nenhum ou vá lá, um num milhão. Ciganos, cabo-verdianos, romenos, Moldavos, p’raí, isso é normal, agora albinos. Sabe o que fazem aos albinos na Tanzânia?»

RECEPÇÃO CRÍTICA / LEITURAS

A emigração, a pobreza, o divórcio entre poder e cidadãos, a destruição ambiental e sobretudo a incomunicabilidade entre gente que vive lado a lado e na era da suposta comunicação global são temas que atravessam O regresso de Ortov sem tentações didácticas ou panfletárias. É o discurso, a linguagem e o modo como esta constrói o universo de Ortov, que conferem à leitura a força de um abalo que faz pensar.

Sara Figueiredo Costa, revista Sinais de Cena, nº 20, Dezembro de 2013, pág. 119.

«Balizadas por guiões sempre minimalistas, ambas as peças são tocadas por esse mal que já surgia na peça primitiva – e que marca também vastas zonas da poesia de Jaime Rocha – e por um profundo absurdo, que se diria antropológico, e que cumpre a função de instigar o próprio animal humano. (…)

Teatro político? Sim, mas apenas no sentido em que as suas movimentações e a sua invenção se reportam à polis e ao que o ser humano nela pode, mas, sobretudo, não pode, continuar a fazer. A efabulação dos vários apocalipses que esta dramaturgia leva a cabo, os absurdos que ela expõe, não são mais do que uma leitura agudamente lúcida do presente e uma especulação conscientemente céptica sobre a possibilidade, cada vez mais improvável, de um futuro para o género humano.»

Hugo Pinto Santos, Ípsilon/Público, 15 de Novembro de 2103.
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