O FARDO DO HOMEM BRANCO

Capa Madalena C Campos_REV2O FARDO DO HOMEM BRANCO, de Madalena de Castro Campos

colecção azulcobalto 009 | poesia

48 páginas | 978-989-8592-17-1 | 1ª edição – Março de 2013 | PVP: € 6,45

EXCERTO

«Comem-lhe da mão,

cheiram-lhe a saia, lambem-lhe

os sapatos.

Iriam mais longe, se ela abrisse as pernas.

Mas contentam-se com pouco.

Trezentos exemplares,

uma fêmea que finja ter-lhes lido os versos,

o nome no jornal de dois em dois anos.

Precoces e curtos, apesar de famintos.» (Os poetas)

RECEPÇÃO CRÍTICA / LEITURAS

«A violência verbal, explícita e assumida, é aqui parte de um projecto de escrita que, num mesmo gesto, pretende chocar e seduzir. Uma sedução provocadora, a um tempo descarada e púdica, de quem mostra o que tem porque não parece acreditar que, de facto, o possua. Que o possua, ou que se possua a si mesma o suficiente.»

Blogue contra mundum – Texto integral aqui.

«Madalena de Castro Campos (Lisboa, 1984), doravante MCC, estreia-se com o livro de poemas O Fardo do Homem Branco, editado recentemente pela Companhia das Ilhas. MCC foi buscar o título do livro a um poema, como é comum suceder. Porém, fez mais do que é vulgar, o último poema agarra o primeiro do livro pelo tema. Ambos são como dois pilares que, numa temática ramificada, marcam, o assunto central e único: o fardo do homem branco, ou seja, o peso da civilização ocidental de hoje, com a distribuição de poder, o uso dele e o modo. A unir esses dois poemas, há uma trave mestra, de onde derivam os poemas do interior, completando a montagem numa estrutura fechada, que só na aparência parecerá fácil, quando se me afigura difícil consegui-la com trinta e nove poemas relativamente curtos, de gestação não programática. (…)»

Nuno Dempster, «Uma poesia diferente», em A Esquerda da Vírgula. 25 de Fevereiro de 2013. Texto integral aqui.

«O que se conhecia de Madalena de Castro Campos, que tem vindo a publicar no blogue les cahiers de la mariée, já dava o tom daquilo que se encontra n’ O Fardo do Homem Branco, o seu primeiro livro, publicado pela açoriana Companhia das Ilhas. Uma poesia fortemente cínica, no modo como a partir de uma personagem feminina vai desconstruindo o marialvismo ainda latente na cultura portuguesa. A utilização, no título, da referência a Rudyard Kipling, acaba por dar um tom pesadamente irónico ao que encontramos dentro deste pequeno volume.
Tematicamente, Madalena de Castro Campos constitui um corpus coeso, percebendo-se o seu sentido auto-crítico na forma como selecionou os textos que havia publicado na rede. O elemento masculino dos seus poemas surge sempre fragilizado na sua unidimensionalidade de procura de satisfação sexual, à qual o elemento feminino se aproxima como elemento facilitador. Ao mesmo tempo, a revelação do cinismo surge enquanto a sua participação no ato é sempre intelectualmente marcada por um certo sentido de superioridade.
O vocabulário da desonestidade, da vingança, da facilidade de praticar a teatralidade das ações está marcadamente presente em toda a obra. Mas a personagem ativa deste livro vai mais longe, nomeando algumas das vezes o homem que subjuga – falando do poeta –, como também denotando um forte desprezo pela mulher velha, de “mamas caídas” ou “carne amarga”.
Em resumo, O Fardo do Homem Branco é uma interessante proposta para uma nova voz da poesia portuguesa, que puxa para este género uma liberdade de linguagem mais característica da prosa e mais habitual das publicações na rede. O grande risco que corre a poesia de Madalena de Castro Campos é encontrar, no leitor, alguém tão cínico como o seu texto, que acabe por, na desconstrução do mesmo, esvaziar as potencialidades da sua proposta. Mas, lá está, a ironia era já a aposta demarcada no próprio título.»
Luís Filipe Cristóvão, Revista literária Sítio
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