MANUCURE

Capa Rosalina_REV1

MANUCURE, de Rosalina Marshall

colecção azulcobalto 010 | poesia

48 páginas | 978-989-8592-22-4 | 1ª edição – Abril de 2013 | 2ª edição – Maio de 2013

PVP: € 6,45

EXCERTO

Os polidores da minha sensação

quando abro a mala
o forro frio que já foi outro
surpreende-me sempre
inesperado odor
de cama de São José
onde me apalparam a perna
e disseram que não merecia levar gesso.

RECEPÇÃO CRÍTICA / LEITURAS

«Intocável. O puro prazer do jogo das palavras; certeiros pensamentos rápidos como navalhas; a tua história, a minha história, o nome de Portugal; um humor acima das lágrimas; clarividente e revelador, uma demonstração do vigor único da poesia. Se isto não é grande poesia, venham os cães e rasguem-me as canelas. Obrigado por nos teres escrito tão bem.»
Pedro Paixão (da edição)

«Eis uma revelação: Rosalina Marshall (n. 1976). Desconcertante, agudo, afirmativo, o seu livro de estreia apresenta-nos uma poetisa que soube criar do nada um espaço verbal, um modo de dizer, uma voz. Não há aqui versos a mais, a precisão é cirúrgica: “Todos os animais/ por dentro são o talho.” As imagens sucedem-se, entrechocam-se: “Chove açúcar nos meus olhos/ de que serve medicar um cadáver?/ do topo do edifício deixo cair/ o enorme cão de louça.” O ato de interpretar está sujeito a uma desconfiança irónica: “A hermenêutica fechou a porta/ depois de velha/ gostava de lá voltar/ e verificar as fechaduras.” Saltamos das observações do quotidiano para as memórias (o cheiro das merendas, o deslizar de patins no “cimento macio” de Montes Claros), mas a banalidade da vida traz sempre consigo uma aresta que corta: “De amor e seus danos/ estão os frigoríficos cheios/ quem nunca esqueceu/ uma alface, um iogurte ou um morto?” A escrita de Rosalina tanto se aproxima de Adília Lopes (“sinto um desconforto qualquer/ por usar soutien/ mas se não usasse/ era muito ordinária/ e os homens não gostariam de mim/ por ser demasiado fácil verem-me as mamas”) como da vertigem metafísica de Fiama Hasse Pais Brandão (“por trás dos manípulos das coisas/ escorrem fontes/ escorrem cisnes/ tudo em arco/ tudo em bandeira/ para o fluxo incontornável/ do rossio do universo/ onde permaneço desde a infância/ à espera de um táxi”). Síntese improvável, síntese feliz. Quase no fim, confessa: “Eu não sou má/ digo e escrevo coisas desagradáveis às vezes/ mas não sou má/ aproveito quando tenho uma caneta.” E aproveita muitíssimo bem. Que lhe seja leve, a caneta, e sempre à mão.»

[José Mário Silva, Expresso/Actual, 27 de Abril de 2013]

1. A Poesia antes e depois do poema

Os escritores e ainda mais os poetas são ressuscitadores de palavras enterradas ou espectrais, em plena metamorfose com as coisas que designam. Não é fácil termos a chave de um real que se desenrola ante os nossos olhos e ainda menos de um real que se transfigura à medida que o procuramos descodificar.

Mas é preciso descodificar? É preciso encontrar a chave para abrir todas as portas, abrir todas as tumbas, decifrar todos os enigmas, espreitar para dentro de todos os corpos? Já não resta em nós qualquer ponta de fé no que não tem explicação, no que escapa à lógica, à ordem racional de uma frase. Perdemos a fé no inteligível como algo capaz de nos habitar, nos acolher, nos consolar ou até… nos redimir?

Não, não creio que seja preciso decifrar o quotidiano, as almas e muito menos a poesia. Por isso não vou tentar escalpelizar os poemas da Rosalina. Não vou psicanalizá-los, nem lhe vou impor uma leitura como (adoram) fazer os ‘especialistas’. Só vale a pena encontrar uma chave se ela abrir um novo alçapão no mistério e não a sua decifração.

2. Manucure

Eu roo as unhas. Não há manucure que me salve ou verniz que sobreviva aos meus dentes. Apesar disso o espaço que Rosalina abre neste trabalho poético dava para eu morar durante muito tempo. Primeiro porque nos integra no jogo sem pedir licença e porque acredita desde o primeiro instante que nós vamos saber jogar. Não nos ensina as regras e até nos faz acreditar que tudo ali é familiar, óbvio. Mas apenas para logo nos apanhar à primeira fraqueza e nos prender dentro de um jogo que afinal não só não tem regras, como é difícil de jogar. O poema não é começado. Vem sim na continuação de alguma coisa que não sabemos (mesmo que já tenhamos partido a perna, o cão de loiça, entornado o verniz, sujado as colchas…). E o poema também não termina no último grafema/fonema porque continua ‘dizendo-se’ dentro de nós. Não é nunca um acontecimento consumado, um lugar visível, é antes uma corrente que entra pelo silencio adentro, carregada de significados, imagens, sons, cheiros para algures explodir abrindo assim novos caminhos, novas ressonâncias, novas polissemias.

“O poema é o guardião da santidade dos pequenos pormenores” – escreveu William Blake, …e o livro de Rosalina está cheio de pormenores, é todo feito de detalhes que, poderão até parecer fruto de um acto “cirúrgico” (uma boa palavra que serve a todos os que têm a ilusão de que ver os interiores é ver tudo, como se os interiores não fossem apenas exteriores de outros interiores, como se não houvesse sempre um ângulo morto, um ponto que não vemos, que não atingimos, mas que existe independentemente dos nossos sentidos ou da nossa ânsia de saber).

O livro de Rosalina não é (para mim) uma cirurgia do quotidiano. É antes uma possibilidadeonde as coisas se libertam do discurso e do imaginário fixo que foi construído ao seu redor, para ganharem novas amplitudes, novas densidades dentro de nós leitores. Porque esta construção poética depurada, parecendo um universo muito particular (os pratos de peixe cozido, os passeios de bicicleta em Montes-Claros, o sabor do leite UCAL), não é um universo auto fascinado, pelo contrário, remete mais para uma vida subterrânea, reivindica as nossas próprias memórias, as nossas próprias manhãs com sabor a leite UCAL. E nunca cai no erro de saber mais sobre o poema do que nós leitores algum dia saberemos. Pelo contrário, com muita sensibilidade, Rosalina nunca põe nada a descoberto e é nisso que esconde, e que vai esconder sempre, que a poeta nos abre uma porta. Mas uma porta para onde não sabemos.

 [Joana Emídio Marques, apresentação do livro (Lisboa, 30 de Abril de 2013)]

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