LAVA DE ESPERA

FM_Lava_Espera_Capa_REV2Lava de Espera, de Fátima Maldonado
Colecção «mundos» 001 | Formato 14×22 cm | ISBN: 978-989-8592-43-9 | 56 páginas |  1ª edição: Março de 2014 | 2ª edição: Março de 2014 | PVP: 8,5 euros

EXCERTO

«O picaroto não tem saída, de um lado a terra maluca que sem mais nem menos se amotina, convulsiona, escouceia, mula manhosa de pernas para o ar mostrando o reverso, a barriga moída onde o pelo sucumbe ao tormento da cilha; do outro o mar, mar atlântico, traiçoeiro, cheio de humores e frio. De Inverno ataca, a ponto de destruir bocados de costa e obstina-se na vila a escarvar nas portas.»

RECEPÇÃO CRÍTICA / LEITURAS

«Este livro de Fátima Maldonado teve já uma edição local, acompanhada por fotografias de António Pedro Ferreira (Camara Municipal das Lajes do Pica, 1996). Mas os textos fulguram, desta vez, sem qualquer apoio imagético, e sem que por isso se tornem menos irradiantes.

O que sobressai destes relatos inclassificáveis não é propriamente a faina baleeira, embora a ela não faltem referências históricas, nem a beleza rude e desmesurada do Pico, também admiravelmente dita nestes textos. Estamos, no fundo, perante um livro de poeta (que nos brinda, aliás, com três magníficos poemas) em que horror e sublime se indistinguem de modo exímio: “Acabou, agora na festa há barracas, a Eurodisney, outra dedicada ao Abrunhosa, barretinhos e veludo de pacotilha, monstros de plástico e “rangers” com várias armas e bazucas. A destruição vereda por todo o lado, aqui é uma espécie de imobilidade que congela lembranças, castelo da Baleia adormecida. Depois de picar-se no fuso o passado esbarra no mar.” Aquém ou além do seu inequívoco valor literário, este livro constitui um repto, uma premente e desconsolada prece, com o que nela possa haver de denúncia: “Mas ao mar ainda não chegaram as motos de água, contaminando-o, óleos ardidos e gente a prestações, como acontece onde escrevo, Galápos, a minúscula praia da Arrábida, dantes cenário de Enyd Blyton e agora devassada por hordas brutalizando o mar”. No fundo, esta “vida extenuada”, a que tentam obrigar-nos, esteve sempre presente na escrita de Fátima Maldonado. Daí, também, a sua desarmante actualidade e o extremo vigor com que nos cativa.»

Manuel de Freitas, jornal Expresso/Atual, 12 de Abril de 2014 

«Este livro oferece-nos a imagem de uma ilha em que a Criação se deixou repousar, interrompida e em aberto. Por um lado, olha-se o passado cristalizado na memória dos que viveram a caça à baleia ou na devoção dos que, regressados entretanto à sua terra, sentem a necessidade de repetir os mesmos rituais ano após ano; talvez de modo quase mágico, para manterem sinais reconhecíveis num presente que inevitavelmente se transforma.
Por outro lado, o futuro da ilha ultrapassa essa ameaça de perigo que a destruição do passado e o avanço do progresso sempre implicam em maior ou menor grau. Como nos indicia o próprio título do livro, trata-se de uma ilha feita de espera, em que um portal em ruínas pode significar, para Fátima Maldonado, “início, conhecimento ou pacto”. Aliás, o mais belo símbolo do Pico, neste livro, é justamente essa espécie de crisálida encontrada por uma criança e encerrando em si todas as possibilidades do mundo: ‘Ao descermos, a criança descobriu por baixo de uma vela rota, que alguém atirara sobre os degraus, esquisita borboleta. (…) Talvez fizesse parte de qualquer mutação, enfaixada depois nas sedas da crisálida transformar-se-ia. Em quê não sei, mas ela havia de encontrar-se’.»

Inês Dias
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