FICAS A DEVER-ME UMA NOITE DE ARROMBA

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FICAS A DEVER-ME UMA NOITE DE ARROMBA, de António Cabrita

colecção azulcobalto 001 | ficção/conto

48 páginas |  ISBN 978-989-8592-01-9 | 1ª edição – Maio de 2012 | 2ª edição – Junho de 2012 | 3ª edição – Outubro de 2012 | PVP: € 6,45

EXCERTO

«A linguagem é traiçoeira mas permite-nos recortar o inexprimível e contar como o Zibelina bateu com os ossos no céu. Embutido na transparência azul. Bastou um tiro com uma carabina para caça grossa. A arma deu um coice no ombro do guarda-fronteiriço, que se aproximou do morto a massajar a omoplata. Antes de o virar com um pé, cuspiu.» [ A boa vizinhança ]

RECEPÇÃO CRÍTICA, LEITURAS

«Um traficante transporta na mochila — entre a barra de haxixe, a máquina fotográfica e latas de atum — dois frascos com fetos de elefante. Um sagui trepa por Brad Pitt acima, depois de ter talvez roubado um memorando que trama a existência, até então idílica, de uma fã da estrela americana (alta dirigente cultural cuja única qualificação é ser amante de ministro). Um homem “espanca” com um remo as águas do mar, vingando-se do afogamento da mulher amada, para quem lê repetidamente o “cântico dos cânticos” na frequência de um rádio submerso. Um filme de Visconti traz energia e perturbação à vida amorosa de um casal. Certa piscina ladrilhada, semelhante a um quadro de Vasarely, é o palco de uma tragédia absurda, em que a picareta talvez leve a melhor sobre a “fusca” pronta a disparar. Além da atmosfera moçambicana, estas cinco histórias de António Cabrita têm em comum uma espécie de volúpia narrativa, um puro gozo de contar que faz com que os textos muitas vezes levantem voo, libertos das amarras do realismo, mas também os entrega a uma deriva que nalguns casos não leva a lado nenhum (“Morte em Veneza, reprise”, por exemplo, cria uma tensão inusitada entre os amantes, sem ser capaz de a resolver). O que empurra este livrinho é sobretudo a prosa de Cabrita — ágil, envolvente, minuciosa, deslumbrada com a variedade das coisas do mundo — e uma certa urgência de fixar as histórias no tempo certo. Se escrito ‘a posteriori’, o texto arrisca-se a sair requentado, “como as respostas ao fundo da escada”. Por isso, “a sede própria para o conto acontecer” é “esta página dobrada pelo instante único em que uma pedra parte um vidro e uma corrente de ar engolfa a casa”.»

José Mário Silva (Atual/Expresso, 1 de Setembro de 2012)

«É uma prosa clara e viva, com o brilho da súbita inventiva, vejam-se, entre outros exemplos, as hipálages “para amparar o busto da tristeza,”, “de súbito, num congelamento, o grosso das pessoas calou-se”. Fazem-me lembrar, noutro século, o “cigarro pensativo” de Eça, mas também, enquanto figura de estilo, a própria ironia acima referida dá vida e confere criatividade à prosa. Os parágrafos são em geral pouco extensos, e os diálogos, equilibrados, em discurso directo ou indirecto, usando neles, muito pontualmente, a fala urbana, creio que de macondes:

“– Mbate, sou eu, o Artur… ya brada, tudo bem… e a cunhada como vai?… como? Mulher é fogo… Mano, lhe telefono porque limpei o sebo a um traficas, o man tem na mochila dois fetos de elefante…”
A parcimónia neste tipo diálogos é uma questão de bom gosto, de fuga à profusão da novidade fácil que agrada ou fizeram que agradasse às maiorias consumidoras de livros, e que se torna, pela pouca ocorrência desses diálogos, uma forma de fazer sobressair esses mesmos diálogos, afinal equilíbrio e jogo estéticos numa literatura que, antes do mais, é realizada por um europeu – não confundir com a CE… – que transportou aos ombros, para Moçambique independente, a sua própria cultura. Daí a sabedoria da narrativa do ponto de vista de um autor português e a exacta medida formal na descrição dos ambientes e gente de Maputo, também, sem dúvida, um dos seus valores, entre os mais que exigem a leitura de Ficas a Dever-me Uma Noite de Arromba.»
Nuno Dempster, poeta (31 de Agosto de 2012, blogue A Esquerda da Vírgula. Texto integral aqui)

«Ficas a Dever-me Uma Noite de Arromba, de António Cabrita, inaugurou a colecção azulcobalto, os atraentes caderninhos editados com esmero e acerto pela açoriana Companhia das Ilhas. Ao leme, o poeta e dramaturgo Carlos Alberto Machado.

Poeta, ficcionista e ensaísta, Cabrita editou (só em 2011) um título em cada uma das valências, respectivamente: Não Se Emenda a Chuva, O Branco das Sombras Chinesas, Respiro. Que essa produção tenha sido acolhida com silêncio quase total (?), eis o que se pode lamentar ou tentar inverter. Escolha-se esta última via.

Cabrita transporta para os contos aqui reunidos a sua bravura estilística e construtiva. Neles se encapsulam as virtualidades de uma escrita da ordem da minúcia e de uma exuberância refreada – «Julieta mira pela janela como caem em cachos as flores de jacarandá e sente na nuca o clamor dos decapitados» (p.14)

Estas ficções de ambiência moçambicana, com personagens de carne e osso – «E o Marinho mostrou a mão esquerda, cicatrizada, sem o dedo anelar. Sorriu com os incisivos que lhe faltavam» (p.23) –, distinguem-se pela disciplina da frase – «ficaram na varanda, a bebericar num último uísque e a contar as estrelas cadentes num céu abarrotado de luzeiros» (p.31) – e pela boa gestão dos recursos à disposição – «O mar é o grampo que segura aquela casa de madeira à duna.» Dir-se-ia que «grampo» é a palavra-chave, mas a chave deste como doutros achados de António Cabrita está, antes, na solidez da sua oficina, não em qualquer truque isolado.»

Hugo Pinto Santos (Time Out, Lisboa, 1 de Agosto de 2012)

1 Comentário

  Cabrita no Correntes de Escrita 2014 | News wrote @

[…] O António Cabrita, com o romance A Maldição de Ondina (edição abysmo, 2013), é um dos 15 finalistas do Prémio Literário Casino da Póvoa, do Correntes de Escrita deste ano. Do António, publicámos, em 2012, o livro de contos Ficas a Dever-me Uma Noite de Arromba. […]


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